terça-feira, 23 de agosto de 2016

ENTREVISTA COM ISAAC SOARES DE SOUZA, AUTOR DE O SUICÍDIO METAFÓRICO DE RAUL SEIXAS

SINOPSE: Ele vivia assim em plena depressão ultimamente. Solidão!!! Solidão!!! Eu sou testemunha que ele queria que Kika voltasse morar com ele. Ele precisava de uma família, sentia falta. Ela não voltou, teve medo! (não a culpem) a barra era pesada demais. Ele se deixou morrer, sem se cuidar. Ele era um suicida em potencial. Deus cuide de sua alma, meu filho, minha dor! (Palavras ditas por D. Maria Eugênia Seixas, mãe de Raul Seixas).

Como surgiu a ideia de escrever "O Suicídio Metafórico de Raul Seixas”? Na verdade este é o meu 8º livro sobre esta figura genial, Raul Seixas, de quem tive a honra de ser amigo durante 35 anos e a ideia de escrever sobre o tema autocídio foi exatamente o tabu e medo que envolve o tema, que é um dos assuntos mais sérios do mundo e o suicídio metafórico afeta diretamente muitas pessoas ao redor do planeta e significa que o suicídio não precisa ser engendrado com uma arma apontada para as têmporas, enforcamento ou outra forma de se matar, quando uma pessoa se envolve com as drogas, alcoolismo, etc e morre em pouco tempo, inconscientemente ela cometeu o suicídio metafórico, caso ocorrido com Raul Seixas, ou seja, o cara não tem coragem de atentar contra a própria vida e então busca meios inconscientes de fazê-lo.
Quanto tempo demorou para a história ficar pronta? Diferentemente de outros livros meus, este, especificamente nasceu um bate-papo que tive com um amigo meu chamado Maurício Messias, que azia mais de 30 anos que eu não via e que apareceu repentinamente em minha casa, ele reside em São Paulo e foi esse amigo que eu não via há mais de 3 décadas quem me localizou por conta de meu livro Dossiê Raul Seixas, lançado em 2011 pela Editora Universo dos Livros, que ele adquiriu em SP e tentou então, me localizar pela internet, sugestionado por ele acabei escrevendo este livro em menos de uma semana. E agora no final do ano, em dezembro, exatamente no dia 12, estarei lançando esse livro no Sesc São Carlos com a presença de um cover do Raul ainda a ser escolhido para abrilhantar a Noite de Autógrafos.
O que o leitor pode esperar de "O Suicídio Metafórico de Raul Seixas"? O que o leitor pode esperar e aprender com esse projeto literário é o aprendizado relativo à vida e ao tema complexo, cujas garras podem abarcar qualquer um de nós, além de saber quais são as diversas formas de suicídio e alguns dos motivos que levam pessoas a cometerem o assassínio de suas próprias vidas.
Qual autor ou autora é seu preferido? Eles de alguma maneira te inspiraram a escrever? Meus autores preferidos são poucos: Darcy Ribeiro, T. S. Elliot, Guimarães Rosa e meu irmão, poeta e filósofo de alma abençoada, Eliezer Soares de Souza e outros mais que não caberiam aqui e todos eles me inspiraram e continuam a me inspirar, pois se tratam de pensadores e guerrilheiros da liberdade, assim como o foi Raul Seixas, cujo nome pelo francês Raoul, significa Lobo Conselheiro.

Se "O Suicídio Metafórico de Raul Seixas" pudesse ter uma trilha sonora qual música você escolheria? Com absoluta e plena certeza seria “Canto Para Minha Morte” e “Canção da Morte”, poema de meu irmão Eliezer Soares de Souza, cujos versos seguem abaixo.

(CANÇÃO DA MORTE I)
ELIEZER SOARES DE SOUZA
Ao correr dos dias
Vejo mais claros seus contornos
Sua presença mais sombria,
Mais reluzentes seus adornos
Dona de todos os horizontes,
Figura velha e inflexível,
Ditas, das cidades e dos montes,
Tua lei velha e temível
Ao soprar o teu hálito gelado
Sobre tudo que perpassa e que seduz
Torna cadáver triste e incinerado
E toda vida em pó, tudo reduz
Pronta sempre pra caçada
Como ave de rapina impiedosa,
Com tua foice inclemente, afiada,
Paira tranquila, suprema, desdenhosa
Ao se abater sobre a vida indefesa
Traz nos olhos a certeza da vitória
Decreta o fim da alegria e da beleza,
Somente nisto consiste a tua glória
Mas sei o que procuras há algum tempo,
Por mim, que insurpreso e sem pasmo
Posso fazer disso um juramento:
Me estremecer contigo num orgasmo
Até que o tempo resolva esta batalha,
Até que tu, com couraças e tridentes,
Tenha aniquilado tudo, em todo ventre,
Te sentarás também mendiga
E faminta num canto, solitária
Recordarás chorando a ceifa antiga
E ao infinito volverás, já também morta e sedentária.
Você segue carreira apenas como escritor ou tem outra profissão? Sou escritor nas horas vagas e de inspiração, sou gráfico de profissão, mas exerço para sobreviver a profissão de tratador de animais no Parque Ecológico de São Carlos, sou servidor público concursado.

Deixe uma mensagem para nossos leitores: Jamais digam que a vitória está perdida, mesmo diante das vicissitudes desta podrida vida, tentem outra vez e mais vezes, tenham fé em Deus e tenham fé na vida, pois é de batalhas que se vive a vida... E para os suicidas metafóricos deixo abaixo uns versos meus:
(ESTAR ALÉM DO TEMPO) - O SUICÍDIO DE MEU PAI -
Isaac Soares de Souza
Após o suicídio de meu pai, num dia lúgubre,
quando os céus cinzentos prenunciavam a saprofagia que desceria sobre minha mansarda,
Entendi, fatalmente, o que Proust queria dizer por "estar além do tempo":
Não estamos aqui, no presente e nem lá, no futuro,
Mas, em vez disso, em uma deliciosa espécie de limbo, entre os dois tempos
Quando retornamos ao passado para entender uma velha e ainda aberta ferida,
Continuamos presos no calabouço da vida, perdidos.
Um homem, ao cometer o suicídio
Não significa que desistiu de viver
Que não suportou o peso de ser humano
Significa que esse homem pode ter sido um herói
que decidiu desertar e abandonar o front,
Significa que ele tem o dom de decidir sobre sua vida
e tem o direito de morrer quando e como quiser
Significa que este homem abandonou o escaler,
quando as procelas anunciavam seu naufrágio,
Meu pai não morreu pensando estar cometendo um erro
Decidiu sobre seu próprio desterro
Tenho a mesma idade dele quando morreu
e ao acompanhar seu enterro
melancólico, descrente, nem mesmo esbocei um adeus,
Tão-somente elogiei a atitude de meu pai,
que passei a considerar um herói,
covarde sou eu que não tenho a coragem de meter uma bala na têmpora
e por um fim a toda essa merda que é a vida
a morte é mais digna e honrada
para quem vive à sombra e permanece além do tempo
Foi apenas um ímpeto que fez meu pai puxar o gatilho
no instante exato em que o cano da arma tocou a pele de sua têmpora.
Uma cena estranha na sala tinta de sangue,
especialmente para um ser que bebia aguardente,
foi ele não terminar de beber seu copo cheio de cachaça.
Sempre o admirei por tal ousadia.
Corajoso até o último suspiro,
Morrer bêbado seria um sinal de covardia
e meu pai morreu sóbrio,
decidido, impávido, coisa que admiro.
Fico sempre pensando nisso,
o copo de cachaça na mesa da sala, quando ouço Canto Para a Minha Morte,
Ode saprófaga, com Raul Seixas.
Meu pai escolheu um rifle de calibre 22, certamente por causa do cano curto,
mais curta e rápida a morte.
Foi até a sala e abriu a gaveta da escrivaninha,
na qual ele criou romances, poemas e escritos,
que nunca foram publicados e nem lidos,
exceto por mim, que invadia seus pensamentos à sorrelfa,
quando meu pai estava em estado etílico,
já em planos homéricos de cometer suicídio
meu pai retirou da gaveta da escrivaninha um único cartucho de uma caixa de munição.
Abriu a arma, colocou a bala na câmara, fechou a arma,
armou o gatilho com seus dedos longos e decididos,
colocou a arma na têmpora e disparou
o suicídio...
Não sei quanto tempo ele ficou ali na escuridão,
amargando sua corajosa decisão.
Não sei se morreu logo,
pois dizem os especialistas em armas e merdas
que isso não ocorre quando se usa uma arma de pequeno calibre.
Será que meu pai pensou em mim quando foi atirado ao chão
será que pensou na dor que sentiria?
Será que a morte dói?
Será que pensou em mamãe?
Morta-viva depois do suicídio dele?
Será que meu pai podia ver o teto da sala quando atingiu o chão?
Será que sabia, estirado ali, que estava morrendo?
Será que estava arrependido
de não ter conseguido voltar atrás antes de puxar o gatilho?
Será que meu pai continuava a sonhar enquanto a morte se aproximava,
com as imagens se distanciando cada vez mais,
será que se meu pai pudesse, não se mataria mais???
Entendi Proust,
O suicídio é uma deliciosa espécie de limbo
entre os dois tempos:
tempo de plantar e tempo de colher,
tempo de viver e tempo de morrer
Não é a decisão de viver ou de se matar,
que estrutura o nosso tempo,
Não existe dia marcado para morrer
e nem existe a covardia do suicida,
existem dois tempos:
tempo de viver e tempo de morrer
E a Morte saprófaga que incide sua decisão sobre a ignóbil e perene vida
decide o tempo de cada qual morrer...

Isaac Soares de Souza tem 58 anos e é de São Carlos - SP.
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