sexta-feira, 19 de agosto de 2016

MATÉRIA ESPECIAL: LIVRO CARRIE, A ESTRANHA

SINOPSE: Carrie, A Estranha narra a atormentada adolescência de uma jovem problemática, perseguida pelos colegas, professores e impedida pela mãe de levar a vida como as garotas de sua idade. Só que Carrie guarda um segredo: quando ela está por perto, objetos voam, portas são trancadas ao sabor do nada, velas se apagam e voltam a iluminar, misteriosamente. Aos 16 anos, desajustada socialmente, Carrie prepara sua vingança contra todos os que a prejudicaram.


Stephen King era professor de inglês, trabalhava numa lavanderia à noite, ensinava de dia e tirava um dinheiro extra com alguns contos esporádicos que escrevia para algumas revistas americanas. Seu primeiro livro publicado foi “Carrie – A Estranha”. King quase desistiu de levar à frente o projeto. Ele chegou a jogar no lixo os rascunhos da história. Quem os encontrou foi sua mulher, Tabatha King, que teve o bom senso de fazer o marido voltar a escrever. Segundo ela, “a história tinha potencial”. E tinha mesmo. Carrie foi um sucesso estrondoso. Algum tempo depois de seu lançamento, o livro virou filme e o filme virou um clássico. Carrie, a estranha garota telecinética que sofria bullying na escola, foi mais do que um marco na cultura pop e nas histórias e filmes de terror: foi o pontapé que alavancou King. Todas as outras maravilhosas obras escritas pelo autor tiveram seu inicio com esse livro.


Carrie (Carrieta) é fruto do deslize no voto de castidade de um casal extremamente fanático por suas crenças religiosas. O pai morre em um acidente no trabalho antes do nascimento da garota, o que só parece confirmar a Margaret White, sua mãe, que Deus cobra caro pelos pecados cometidos. A mulher cria sua filha na base da violência e ameaças de condenação, a trancando em um armário sempre que a garota fazia algo que julgava errado. Não poucas foram as vezes que Carrie ficou trancada no pequeno cômodo durante longos períodos, sem poder se alimentar e precisando fazer suas necessidades ali mesmo. Margaret possui uma péssima fama na cidade, e desde pequena Carrie enfrenta os piores tipos de preconceito e gozação na escola por sua causa. Além disso, os estranhos modos e a aparência da garota parecem não ajudar muito. Ela aprende a confeccionar suas próprias roupas, sempre compridas, possui o corpo coberto por espinhas, nunca participa de eventos sociais e desconhece assuntos que dizem respeito à puberdade e sexualidade. Mais estranho, contudo, é o fato de a garota demonstrar possuir desde pequena o poder da telecinese (capacidade de mover objetos com a força do pensamento).


Os casos aconteciam principalmente em situações de tensão, como quando Margaret surta após ver a filha conversando com a vizinha que tomava sol de biquíni no quintal dos fundos e Carrie então ocasiona uma chuva de pedras que atinge unicamente sua casa. Naquela época, ela não tinha muita noção do que era capaz de fazer e se cansava quando esforçava demais sua mente, mas adquire um controle maior sobre seus poderes conforme cresce. Com 16 anos, Carrie passa pelo pior trauma de sua vida (mesmo considerando tudo de ruim que já havia enfrentado até então). Enquanto tomava banho após uma aula de educação física, ela fica menstruada pela primeira vez na frente das outras garotas da turma, que gritam as piores ofensas para ela e a atingem com vários absorventes. Acontece que Carrie não fazia ideia do que estava acontecendo e fica desesperada por confundir a menstruação com uma hemorragia. A professora aparece e a repreende antes de perceber sua inocência. Então, a ajuda a se limpar, explica a mudança pela qual seu corpo esta passando e consegue que a garota seja dispensada das aulas naquele dia. A mãe bate na filha pelo pecado que cometeu ao se tornar mulher e a obriga a rezar diante do altar que ficava em um cubículo próximo ao armário do castigo, onde depois a trancou durante mais de seis horas.


A professora de educação física fica descontente com o comportamento das garotas para com Carrie e decide castigá-las. Sob sua rígida supervisão, elas precisam frequentar a detenção durante uma semana, as que faltassem teriam sua entrada barrada no baile de formatura, que aconteceria em pouco tempo. Chris Hargensen, uma garota mimada e filha de advogado, se recusa a cumprir a pena, é impedida de ir ao baile e decide se vingar de Carrie com a ajuda do namorado delinquente, Billy Nolan. Sue Snell, por outro lado, fica aparentemente arrependida pela maneira como agiu, e convence seu namorado, Tommy Ross, a levar Carrie como acompanhante na festa para que assim ela pudesse aproveitar ao menos um momento de sua vida como uma garota normal. Carrie aceita, apesar de sua natural suspeita, e confecciona um vestido vermelho para a grande noite. Margaret enlouquece diante da ideia da filha indo ao baile, mas não consegue impedi-la graças ao medo de seus poderes telecinéticos. Vou parar por aqui para não contar todo o livro rs!


O livro é um thriller psicológico que prende o leitor desde a primeira página. Outro aspecto importante da narrativa do King nessa história, é que desde o começo sabemos como tudo vai terminar mesmo que não saibamos exatamente como as coisas irão acontecer. É quase um spoiler soltado pelo próprio autor, mas que não diminui em nada as surpresas que ele reserva em suas páginas. Nesse livro em específico, ele alterna os pontos de vistas dos personagens e dá uma totalidade de todas as situações e motivações. Mas não é só isso, em meio a essas narrações, há interrupções de entrevistas, trechos de jornais, artigos e inquéritos policiais que abordam o caso de Carrie de uma perspectiva tanto científica, como também, humana. Com a sacada de escrevê-lo em forma de entrevista, King acertou em cheio: os acontecimentos causados pelos poderes sobrenaturais de uma menina assustada, cheia de raiva e que não tem a menor ideia da amplitude deles são narrados por vários pontos de vista diferentes. O que, além de deixar o livro bem mais dinâmico, sai totalmente do clichê.


O livro impressiona por trazer o retrato de uma jovem diferente dos padrões estabelecidos pela sociedade que é tão hipócrita em seus julgamentos, mas tratando de modo muito profundo as relações humanas e a ideia de que sempre há algo por trás do comportamento de determinada pessoa. No caso de Carrie, mais do que sofrer com os bullyings constantes daqueles que estavam ao seu redor, ela também sofria com os abusos psicológicos e físicos de sua mãe. Na verdade, a personagem da mãe dela é muito mais complexa do que imaginamos a princípio, já que ela acaba sendo o principal motivo para Carrie tomar todas as atitudes de sua vida. Isso está muito relacionado ao fato de sempre ter sido ela e sua mãe, da figura do seu pai ter sido muito breve causar qualquer tipo de impressão nela. Desse modo, por mais que ela tente lutar contra aquilo que sua mãe impõe, ela não tem forças para se desligar ligação doentia.


Essa relação se torna ainda mais problemática porque a mãe de Carrie possui um fanatismo religioso que tornam as coisas mais intensas e os seus sentimentos assustadores diante de situações simples na vida, como vestir uma roupa bonita ou conversar com um garoto. Para ela, tudo é errado, um pecado que pode corromper a alma e comprometer a salvação eterna. O mais incrível disso tudo é que seu fanatismo religioso não tem uma ligação com uma religião em específica, é mais como um sentimento de que há um Deus vingativo que pune diante do menor desvio. Ela me deixou uma impressão tão forte quanto à própria Carrie, que desde o começo se mostra vítima das circunstâncias e da incompreensão das pessoas. É impossível não se comover com a sua história e não entender que tudo o que ela fez foi ocasionado por um desespero e um desejo de ser amada e aceita que ia muito além do que ela mesma imaginava. A cena do que aconteceu com ela se repete todos os dias, já que não é raro as pessoas sofrerem descriminação não só por sua cor de pele, mas também por sua classe social, por seu estilo de vida, por sua aparência e por tantas outras coisas que revelam a podridão que se esconde na mente das pessoas.


É claro que a épica cena do banho de sangue é um dos melhores pontos do livro, há perspectivas diferentes sobre o que aconteceu e como aconteceu, desde a perspectiva da própria Carrie até a de uma das sobreviventes. Stephen King faz uma mega descrição do que acontece, dos pensamentos e sentimentos das personagens e a desorientação e descrença do que realmente estava acontecendo parecem te transportar às cenas. Apesar de ser um livro pequeno, ele é realmente grandioso, pois além de trazer a história de uma menina com poderes telecinéticos, ele mostra o instinto humano de forma verdadeira e cruel. O livro é divido em três partes. O desfecho é típico do rei: muito sangue, explosões, mortes e destruição para todo lado. Temos que agradecer Tabatha King, porque se não fosse ela, provavelmente não teríamos a possibilidade de ler esse livro incrível. Stephen King não poderia ter escrito um melhor livro de estreia do que esse. "Carrie, a Estranha" é simplesmente sensacional!


O livro teve um total de três adaptações: 1976, com Sissy Spacek como Carrie. Muitos acreditam que é a melhor versão da história, mas aqui temos uma Carrie um pouco divergente do livro, ela parece em alguns momentos não aceitar seu dom, aqui Spacey é uma garota extremamente linda e talvez um pouco fora da ambientação dos anos 70, enquanto suas amigas apresentavam madeixas volumosas e roupas moderninhas, Carrie tinha uma longa cabeleira lisa e loira e utilizava roupas de caipira, só fica estranha mesmo na cena do baile, aquele olhar me dá um certo arrepio até hoje!


Bastante condizente à época, Carrie era oprimida por ser diferente e isso a tornou submissa, sem coragem de enfrentar aqueles que abusavam dela. Ela de fato amava a mãe ou a temia? Seu olhar assustado, sem conseguir encarar ninguém por muito tempo é uma constante. Até a cena final, em que ela se cansa de tudo isso. Nesta versão, Carrie se assusta ao descobrir seus poderes telecinéticos. Tal coisa só pode ter a ver com o demônio. Ela brinca um pouco levitando livros, mas continua sem compreender do que é capaz. Então, ao ser humilhada em público, em seu único momento de glória, ela sente ódio. Movida por esse sentimento, Carrie permite que seus poderes dominem seu corpo e sua mente. Nada mais importa, só a vingança. Todos estavam rindo dela, ou pareciam estar. O filme gera uma dúvida sobre a mãe de Carrie, dando a entender que ela também poderia ter telecinese. O que faria sentido, pois desta forma, Margaret estaria reprimindo o que considerava um demônio que passou dela mesma para sua filha.


Na versão de 2002, com Angela Bettis no papel, que não é um filme, é um piloto de uma série que não vingou e virou uma minissérie. Angela Bettis, realmente se entregou no papel, ela sim é uma Carrie bem estranha, daquelas que você olha e pergunta se um dia vai ter namorado, mas no livro a Carrie não é tão assustadora assim. Essa versão é uma das mais detalhadas da história, tem a cena da Chuva de Pedras (ou meteoros) e é bem fiel a do livro. E recorre aos depoimentos dados à polícia e toda a investigação sobre o que aconteceu no baile. Por conta dele ser bem mais explicativo, sem todos os furos e perguntas deixadas no ar do primeiro. Ele é mais completo nesse sentido. Quando seu poder está no auge, Carrie entra numa espécie de transe e fica confusa, sem saber o que está acontecendo. E a telecinese é bastante explorada nesta versão. Ela descobre seus poderes, e os encara, a princípio, como um milagre e vai aprendendo a desenvolvê-los no desenrolar da história.


O Carrie de 2013, estrelado por Chloe Moretz e Juliane Moore teve poucos pontos fortes (somente o banho de sangue e a atuação da Julianne Moore valeram), por conta da pouca idade da Chloë (dezesseis anos na época), o filme já não teve essa exploração da sexualidade que é um ponto forte do livro e um final clichê. Faltaram também algumas cenas que dariam todo um up para o filme, como a da chuva de meteoros e a do Jantar (onde Carrie avisa a mãe que foi convidada para o baile) O grande trunfo da nova versão, é com certeza a cena do Baile, que é de tirar o fôlego! A história se passa nos dias atuais. Talvez, por esse motivo, temos uma personagem mais forte. Carrie continua sendo uma garota insegura, estranha e sem amigos, mas sua relação com a mãe mudou consideravelmente. Por ter sido criada, praticamente isolada da sociedade, estudando a bíblia com Margaret, é de se esperar que ela seja profundamente religiosa também. Mas ela contesta, não aceita tudo como verdade universal e tem a mente aberta para pesquisar em livros e na internet sobre os seus poderes telecinéticos. Coisa do demônio? Não, genética. Por não temer seus poderes, ela treina para ver até onde pode ir e se diverte fazendo isso. Portanto, na cena do baile, vemos coisas que as outras Carrie não fizeram, porque não treinaram.


O filme tenta ser fiel e logo no início dá pra perceber que rolou uma inspiração na versão de 1976, mas ele dá margem a novas interpretações e teorias. A autoflagelação é vista tanto em Carrie quanto em sua mãe. Para Carrie, uma forma de punição, um preço a ser pago pelo pecado, para Margaret, uma forma de controlar o mal que guarda dentro de si. O amor entre mãe e filha. apesar de conturbado e de compreensão não muito fácil, foi o que trouxe aos olhos de Chloë uma pureza e uma bondade que não estava tão presente nos assustados olhos de Sissy. A Carrie de 1976 vivia em uma sociedade repressora, que inferiorizava a mulher e oprimia quem era diferente, e a Carrie de Chloe nasceu numa era de luta por igualdade de campanhas antibullying. Ela ainda foi humilhada e marginalizada da mesma forma, mas tinha consciência de que merecia ser tratada como igual. A Carrie de 2013 sabia quem era. Vemos isso com mais clareza no momento em que ela seleciona quem queria matar. Ela estava consciente e não descontrolada como as das duas outras versões. Ela queria vingança e perseguiria seu alvo. Ainda assim, o filme deixa a desejar em muitos aspectos e não supera o clássico.

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