sexta-feira, 26 de agosto de 2016

RESENHA: O LADO BOM DA VIDA

SINOPSE: Pat Peoples, um ex-professor de história na casa dos 30 anos, acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Convencido de que passou apenas alguns meses naquele “lugar ruim”, Pat não se lembra do que o fez ir para lá. O que sabe é que Nikki, sua esposa, quis que ficassem um 'tempo separados'. Tentando recompor o quebra-cabeças de sua memória, agora repleta de lapsos, ele ainda precisa enfrentar uma realidade que não parece muito promissora. Com seu pai se recusando a falar com ele, sua esposa negando-se a aceitar revê-lo e seus amigos evitando comentar o que aconteceu antes de sua internação, Pat, agora um viciado em exercícios físicos, está determinado a reorganizar as coisas e reconquistar sua mulher, porque acredita em finais felizes e no lado bom da vida. À medida que seu passado aos poucos ressurge em sua memória, Pat começa a entender que 'é melhor ser gentil que ter razão' e faz dessa convicção sua meta. Tendo a seu lado o excêntrico (mas competente) psiquiatra Dr. Patel e Tiffany, a irmã viúva de seu melhor amigo, Pat descobrirá que nem todos os finais são felizes, mas que sempre vale a pena tentar mais uma vez. Um livro comovente sobre um homem que acredita na felicidade, no amor e na esperança.


O livro é narrado pelo protagonista Pat Peoples, um homem na casa dos 30 anos que foi internado em uma clínica psiquiátrica (no lugar ruim, segundo ele). O problema é que Pat não se lembra de quanto tempo se passou enquanto esteve isolado do mundo e muito menos o que aconteceu para fazê-lo ir para lá. A única coisa que ele sabe e que se agarra com todas as forças, é que a sua esposa, Nikki, quis que eles ficassem um tempo separados. A mãe dele, Jeanie, é uma mulher batalhadora e que o ama bastante. Ela o tira da instituição e o leva para sua casa, mesmo que ainda esteja mentalmente perturbado. Mas esse retorno não é nada fácil. Seu pai, Patrick, se recusa a falar com ele e todos evitam comentar sobre os acontecimentos do passado, que resultaram na sua internação. Pat se vê obrigado a reorganizar sua vida, enxergando sempre o lado bom das coisas. Sua mãe compra alguns aparelhos para que ele se exercite em casa. Pat acredita na reconciliação com Nikki e, para ele, é essencial que esteja em forma. Além disso, ele volta a ser um fiel torcedor dos Eagles, seu time de futebol americano e, com isso, até consegue melhorar a relação com seu pai, na medida do possível. Aos poucos, Pat volta a viver uma vida normal, cada vez mais motivado a construir um final feliz para o seu próprio filme. Foi preciso passar alguns meses para reabilitar-se e tentar seguir uma vida normal. Todos a sua volta tentam não comentar sobre o incidente, porém Pat precisa recobrar a memória e vencer os lapsos que sofre constantemente. 


Em uma determinada situação, Pat ouve uma música que o faz lembrar da sua esposa. E é essa canção que traz todas as lembranças de Pat de volta. Toda a sua memória e tudo aquilo que não consegue entender. Será que Pat conseguirá lutar contra si mesmo? Com a ajuda de uma amiga louca, chamada Tiffany, Pat vive um dia de cada vez e o seu passado vai ficando para trás. Será que Tiffany consegue ajudar ao seu amigo? E a esposa de Pat, o que pensa sobre tudo isso? Qual será o desfecho dessa história? Pat conseguirá reconquistar Nikki? Ele terá sua vida de volta? O que o levou a internação? Porque seu pai se mantém afastado? Porque seu irmão não o visita? O que poderia levar pai e irmãos a se unirem novamente? Pat conseguirá controlar suas emoções? Conseguirá voltar a sua vida normal?


O livro é meio lento no início. Essa foi a visão que eu tive nas primeiras páginas. Mesmo assim, é um livro gostoso de ler e de uma parte em diante é simplesmente impossível largar. Não demorou muito para que eu percebesse que o ritmo dado por Matthew Quick era necessário para criar a atmosfera que a trama exigia. Considerando que o protagonista sofre de problemas psicológico e que o livro é como se fosse um diário desse homem em crise, tudo isso fez sentido. Quando Pat fica confuso ou perde o controle, a narrativa fica intensa junto com ele. Essa técnica de escrita de Matthew, quando vista sob esse ângulo, torna o livro genial.


A bipolaridade do personagem é descrita de maneira simples, quase inocente, porque o personagem não faz a mínima ideia de que é assim. Ele tem um problema psiquiátrico e precisa tratar, mas ele sequer entende o porquê. Então ele tenta entender e se entender através da ajuda de seu terapeuta, Dr. Patel. Pat é um personagem complexo, ingênuo, repleto de altos e baixos e que tem um coração enorme. Esse conjunto faz dele um protagonista extremamente cativante, que o leitor torce, ri e se emociona, desde o primeiro contato até a última página. Os demais personagens foram bem construídos. Então somos apresentados à Tiffany. Uma garota maluca e tão ferrada emocionalmente quanto Pat. Mas Tiffany, além de louca, é bem legal. Uma personagem no mínimo interessante - de tão esquisita. Mesmo porque, desde que a personagem é apresentada até o ponto que passamos a gostar dela, entendemos que seu comportamento maluco também é resultado de um grande trauma.


Tiffany não tem traquejo social, não consegue disfarçar quando não gosta de algo, não finge estar feliz quando as pessoas esperam que ela o faça e tem uma agressividade que a torna uma bomba prestes a explodir numa crise de raiva. Ou de choro. No início, Pat tenta se livrar dela, literalmente corre quando a encontra. Mas, ela se torna a única pessoa que consegue compreender como Pat se sente e como pensa. Pat precisa de ajuda com algo que Tiffany se propõe a fazer, enquanto Tiffany conta com a ajuda de Pat em outra. As coisas, em si, parecem pequenas, mas é preciso observar o que há por trás delas. Se a gente observar de perto, parece muito com as coisas que fazemos na vida real.


É no mínimo engraçado de ver duas pessoas extremamente malucas tentando provar que não são malucas em meio a crises de instabilidade crônica e escândalos na vizinhança. Outro ponto que eu gostei muito foi que Pat resolveu ler os livros que a ex-esposa gostava e sobre os quais lecionava, porque queria ficar inteligente para que ela tivesse orgulho dele - mas surtava quando um livro acabava mal e não entendia como ela podia dar aula a jovens com um livro tão deprimente, que não enxergava o lado bom da vida (e aqui ele, sem pudor nenhum, faz spoiler de vários livros - como por exemplo quando ele se enfurece com  Hemingway e cospe o final do livro). Ele tenta a todo custo manter a positividade e repete o mantra de "ser gentil ao invés de ter razão.


O enredo não possui nada de extraordinário, não tem uma trama surpreendente, não tem uma escrita maravilhosa. É simples. E essa simplicidade, torna-o mágico. O que me conquistou foi justamente isso. Recomendo esse livro por ser leve, agradável, inspirador e emocionante. Ideal para aqueles que não conseguem ver o lado bom das coisas.


O livro chamou a atenção do diretor David O. Russel, que trabalhava no roteiro há anos (antes mesmo de lançar o aclamado “O Vencedor”), por conta  de seu filho, que é bipolar e sofre de transtorno obsessivo-compulsivo. Esse fator foi primordial para que o filme desse certo, afinal O. Russel conhece bem o que passou nas telonas. O filme é bem diferente do livro, mas ainda assim é bom. Uma das primeiras diferenças notáveis entre filme e livro é que na obra original Pat não faz ideia do motivo de ter sido internado, descobrindo apenas no fim do livro. Já no cinema a razão para a internação é rapidamente mostrada ao espectador durante uma das sessões de terapia do protagonista, que tem total consciência de que quase matou o amante da esposa ao pegar os dois no flagra. Junto com o flagra da traição veio outro trauma: a fatídica música que enlouquece Pat. No filme a canção que embalou a pulada de cerca de Nikki é “My Cherie Amour” de Stevie Wonder.
Enquanto no livro é “Songbird” de Kenny G. E eu prefiro essa! 
No livro Tiffany é mais velha que Pat e deve ter cerca de 38 anos, e isso quase impediu a participação de Jennifer Lawrence (22 anos) no longa.  Atrizes mais experientes como Anne Hathaway, Elizabeth Banks, Rooney Mara, Kirsten Dunst e Angelina Jolie foram cotadas para viver a protagonista, enquanto David O. Russel (diretor do filme) fez um teste com Lawrence apenas por consideração, já que nunca passou em sua mente contratar a jovem atriz. Mas o talento falou mais alto e J-Law desbancou todas as suas concorrentes, fez um grande trabalho e de quebra levou um Oscar pra casa (inclusive caiu ao ir receber rs). O lado bom do filme é o maior espaço dedicado à Tiffany. No livro ela é importante para o equilíbrio de Pat, mas não é figura recorrente. As páginas se dedicam mais ao relacionamento do protagonista com os pais e com o futebol americano. A personagem feminina na tela ganhou mais espaço e mais importância, e contribuiu muito para o bom fluxo da trama. Vale lembrar aquela cena incrível onde Tiffany destrói os argumentos do Pai de Pat (Robert de Niro) cuspindo os resultados dos últimos jogos da liga americana, cena que não está nos livros. Esse é um dos grandes momentos de Tiffany no filme e transforma o espírito da personagem do livro em ação no longa. 


No livro o sobrenome da família é Peoples, o pai de Pat é extremamente mal humorado e não conversa com o filho, o irmão de Pat aparece muito mais, inclusive com sua esposa, e a mãe vive numa corda bamba entre agradar o marido e o filho. No filme o sobrenome é o italianíssimo Solitano, o pai é bem mais maleável, o irmão aparece pouco e a mãe não tem tantos problemas. O concurso de dança é o fio condutor da história no cinema, já que o diretor optou por transformar o livro em uma comédia romântica. É por meio da dança, do companheirismo, da responsabilidade de aprender a coreografia que Pat encontra seu equilíbrio, volta a tomar seus remédios e enxerga que há muito mais na vida do que sua amada Nikki. O filme é bem mais leve que a obra literária, mas isso não tira seu valor. A trama é passada de um jeito mais ameno, mas sem deixar de tocar na ferida. O longa é colorido, claro, luminoso e engraçado, mas não deixa de ter o lado sombrio dos distúrbios psicológicos e nem o preconceito que as pessoas sofrem por conta deles. 


E o que falar da cena sensacional da apresentação da dança? Seria muito clichê se o casal arrasasse na pista e vencesse a disputa. E a dança maluca que misturou valsa, rock, dança contemporânea, sapateado e Dirty Dancing com aquele constrangedor salto final valeu como ponto alto do filme. Apesar do casal ser o melhor no concurso de dança no livro, isso não torna a situação mais clichê ou menos ridícula. Afinal, na disputa das páginas, eles concorrem com adolescentes, o que torna constrangedor a participação de dois loucos com quase 40 anos de idade naquele concurso juvenil.

No livro, Pat acha que ficou apenas alguns meses na instituição psiquiátrica, mas, na verdade, ele passou alguns anos lá. Como o período tempo foi grande, várias coisas mudaram enquanto o protagonista esteve aprisionado. Já no filme, Pat passou alguns meses na instituição e pronto. Só essa diferença de tempo já muda algumas coisas, no livro, por exemplo, a filha do Ronnie é mais velha, um estádio de futebol americano foi demolido e a Nikki já até se casou novamente e teve filhos. O filme também deu destaque para o Danny (amigo que Pat conheceu na instituição psiquiátrica) e o Ronnie, o que não acontece tanto no livro. O filme não tem a cena da praia. Acredito que a maior diferença é a forma como é contado e o público alvo. O livro é muito de drama, ele é o diário do Pat e conta tudo o que personagem passa. Enquanto isso, o filme tenta alcançar um público maior, então apela para a comédia.

4 comentários:

  1. Que legal a sua resenha, ainda não li o livro (só assisti ao filme), mas vendo sua resenha, me deu vontade de conferir... Abraços!!

    www.lendo1bomlivro.com.br
    Instagram :) @lendo1bomlivro

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    Respostas
    1. Depois que ler o livro nos diga o que achou :)

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  2. Olá!!
    Nossa, que legal! Eu vi o filme e fiquei apaixonada por essa maneira de ver as coisas... Não tive tanta vontade de ler o livro, mas agora que você falou as diferenças e tal, me dei bastante vontade de pegá-lo para minhas leituras mesmo. Acho que qualquer leitura que mostre uma forma diferente como essa de um personagem com bipolaridade sempre deve valer a pena :)

    http://lecaferouge.blogspot.com.br/

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