quinta-feira, 29 de setembro de 2016

RESENHA: PARA SEMPRE

SINOPSE: A vida que Kim e Krickitt Carpenter conheciam mudou completamente no dia 24 de novembro de 1993, dois meses após o seu casamento, quando a traseira do seu carro foi atingida por uma caminhonete que transitava em alta velocidade. Um ferimento sério na cabeça deixou Krickitt em coma por várias semanas. Quando finalmente despertou, parte da sua memória estava comprometida e ela não conseguia se lembrar de seu marido. Ela não fazia a menor ideia de quem ele era. Essencialmente, a 'Krickitt' com quem Kim havia se casado morreu no acidente, e naquele momento ele precisava reconquistar a mulher que amava.


Kim era treinador esportivo. Kickitt trabalhava em uma loja de material para esportes. Eles se conhecem quando relações amorosas aconteciam de uma forma completamente diferente da atual sem Whatsapp, Skype, Snapchat, Tinder. O primeiro contato entre os dois acontece quando Kim decide encomendar uma jaqueta de treinador e Krickitt atende o telefone. Foi paixão ao primeiro “alô”, literalmente! Depois deste primeiro telefonema outros se seguirem apenas para que Kim pudesse ouvir a voz doce e simpática de sua nova “amiga”. E a partir daí passam a se falar muitas vezes, dando início a uma espécie de namoro à distância – afinal, moravam em lugares diferentes a muitos quilômetros de distância um do outro - trocando cartas e a enviando as primeiras fotos um para o outro. Quando finalmente se encontram, têm certeza que devem investir em um relacionamento duradouro. Algum tempo e muitas passagens aéreas depois, os dois resolvem se casar e serem felizes para sempre.


A vida do casal estava a mil maravilhas e já tendo completado dois meses resolveram passar o Dia de Ação de Graças com os pais dela que moravam em Phoenix.  No decorrer da viagem, Kim não se sente bem e sua esposa assume a direção. Tudo estava indo bem até que ela se depara com um caminhão e mesmo tentando desviar acaba capotando. A partir daí, a vida do casal muda completamente e para sempre. Krickitt fica à beira de morte, em coma por várias semanas, até que um milagre parecer intervir por ela. O único problema é que ela não tem lembrança nenhuma de ter conhecido Kim e menos ainda de ter se casado com ele! Kim fica devastado, claro, mas continua ao lado da mulher. Mas a verdade é que sua esposa morreu no acidente e aquela Krickitt que está ali é tão desconhecida para ele quanto ele para ela. Ele luta bravamente (e por muito tempo) para ajudar na recuperação da esposa. Ajuda no tratamento médico, está sempre ao seu lado e não tem vontade de desistir. Ela, por sua vez, fica insuportável depois do acidente. Passa a agir como uma adolescente mimada e irritante, nada a ver com a mulher por quem Kim de apaixonou – a não ser pelo sorriso.


A história dos dois é uma história real. Hoje os dois estão juntos e têm dois filhos. Krickitt nunca se lembrou de Kim antes do acidente, mas diz que é feliz e o ama por tudo que ele fez por ela depois. Narrado por Kim, que o faz de maneira não linear e, às vezes, um pouco confusa. A história, apesar de biográfica, tem umas partes que soam um tanto romanceadas e surreais. Mas não por isso a história deles deixa de impressionar. Krickitt sempre foi uma mulher de muita fé e isso foi a única coisa que permaneceu intocada depois do acidente. Apesar de chata, é possível imaginar bem o sofrimento que deveria ser a vida dela naquele momento. 


A própria Krickitt já admitiu que aprendeu a amar Kim, mas acho que muito dessa vontade de permanecer ao lado dele veio da religião. Fica a impressão de que para ambos era impossível romper o laço matrimonial religioso, independente da circunstância. Então, sem outra opção, ela decide reaprender a amar aquele homem que fez muito por ela. Senti falta de ter a oportunidade de acompanhar o lado dela da história, temos apenas a visão e opinião de Kim. Mas gostei muito da sinceridade no final, quando assumem que os dois optaram por aproveitar toda a exploração da mídia para poderem mostrar ao mundo sua história. Apesar do livro não ter me agradado, é uma história linda, muito bonito ver a fé da Krickitt e por todos os caminhos que o casal passam.


É um livro para quem se importa mais com o conteúdo que com a escrita, já que Kim não é um profissional, fazendo com que a todo momento sentir que ele não conseguia descrever direito algumas cenas e ficavam repetindo alguns assuntos já apresentados. Sobre a narrativa, ela é extremamente rápida e para um livro com essa história, achei que faltou um pouco mais de aprofundamento. O que aconteceu com eles foi bem Hollywood, a batida de carro, as cenas no hospital, as idas e vindas, tudo foi muito bom e poderia ser melhor trabalhado, escritamente falando.


O filme inspirado na história dos dois, estrelado por Rachel McAdams e Channing Tatum é MUITO diferente do livro, até os nomes são alterados, que agora se chamam Page e Leo. E mesmo assim achei o filme Para Sempre, apesar de alterar muito a história original, conseguiu ser, em muitos sentidos, mais profundo: as cenas têm mais amor, são mais doloridas, são mais reais, dão mais angústia e também trazem mais alívio. Mas a forma como o casal se conhece, a forma como eles casam, o relacionamento de Paige/Krickitt com os pais, as profissões deles, como o acidente aconteceu, tudo é DIFERENTE. No livro, Krickitt é telefonista em uma empresa que vendia casacos e Kim é um treinador de futebol em uma escola, enquanto na versão cinematográfica, ela é uma estudante de artes plásticas e ele o dono de uma gravadora independente. No filme, Paige largou a carreira de Direito, uma vida na casa dos pais com todas as regalias após descobrir que seu pai estava traindo a mãe com uma amiga dela. Ao confrontar a mãe sobre esse fato, ela descobriu que os pais viviam uma mentira e mentiram também para ela e a irmã por anos. É nesse momento que ela decide abandonar sua realidade e mudar-se para Chicago para perseguir seu sonho que havia sido deixado de lado: a arte de esculpir. Na cidade, ela conhece Leo, seu marido. Após o acidente de carro, Paige volta à consciência 5 anos atrasada e pensa que ainda mora com os pais. Ela sequer se lembre de quem é o marido ou de ter descoberto a verdade sobre seu pai. Por isso, ela não entende esse estilo de vida mais livre e despojado que adotou, por que teria largado a faculdade de Direito e uma série de outras decisões.


No livro, Kim precisa enfrentar a necessidade de mostrar à sua esposa que ela realmente o escolheu para estar ao seu lado para o resto da vida. Além disso, ela está passando por mudanças de humor causadas pela concussão, então está extremamente irritadiça e muito longe da mulher com a qual ele se casou. Isso, é claro, o faz questionar se ela ficaria assim para sempre e se ele ainda amaria a pessoa a qual ela se tornou. No filme, além desses problemas, Leo ainda precisa enfrentar alguns outros: 1) Paige volta a procurar o ex-noivo, de quem ela se separou 5 anos atrás (quando decide mudar de vida), mas não se lembra; 2) decididos a trazer a filha de volta para casa depois de cinco longos anos sem sequer se falarem, os pais de Paige fingem que a briga entre eles e a filha jamais aconteceu e a afastam do marido. Ou seja, se ela já se sentia confusa em relação a estar casada com um homem que “não conhece”, quando os seus pais o desaprovam, ela só fica ainda mais cabreira. Outro fator que a deixou confusa é o fato de Leo, que se diz seu marido, nunca ter conhecido seus pais, com os quais ela não se lembra de ter rompido a relação.


A presença/ausência das famílias na cena foi outro mudado: na realidade a família de Krickitt apoiou muito Kim nesse momento, tentando promover a reconciliação do casal pós-acidente. A família dele também não ficou longe e seus pais estiveram sempre ao seu lado nos momentos difíceis. Já o que vemos no filme é uma história ainda mais complicada, na qual a família dele é ausente e a dela tenta a todo custo trazê-la de volta para a casa dos pais, desestimulando completamente a reunião do par. Além disso, a religiosidade do casal também não é como no livro. Enquanto na autobiografia Kim e Krickitt são extremamente religiosos, esse assunto sequer é abordado no filme. E essa provavelmente é a diferença que torna o livro completamente diferente do filme. No livro, a relação deles parece que está sendo forçada. Ambos ficam rezando incessantemente para que esse momento passe, para que o outro mude, para que Deus os dê forças para encarar os próximos dias. Durante muito momentos parece que eles estão tentando se reconciliar única e somente porque eles fizeram um pacto perante Deus, os votos matrimoniais e têm de permanecer nele para sempre. Enquanto isso, no roteiro cinematográfico, Leo fica enlouquecido ao sentir que aos poucos está perdendo o amor da sua vida e Paige se sente atraída por ele de forma que não consegue explicar, como se algo a levasse a querer conhecer melhor o estranho que diz ser seu marido.

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