quinta-feira, 22 de setembro de 2016

RESENHA: PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN

SINOPSE: Para falar de Kevin Khatchadourian, 16 anos – o autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio do subúrbio de Nova York –, Lionel Shriver não apresenta apenas mais uma história de crime, castigo e pesadelos americanos: arquiteta um romance epistolar em que Eva, a mãe do assassino, escreve cartas ao marido ausente. Nelas, ao procurar porquês, constrói uma reflexão sobre a maldade e discute um tabu: a ambivalência de certas mulheres diante da maternidade e sua influência e responsabilidade na criação de um pequeno monstro. Precisamos falar sobre o Kevin discute casamento e carreira; maternidade e família; sinceridade e alienação. Denuncia o que há de errado com culturas e sociedades contemporâneas que produz em assassinos mirins em série e pitboys. Um thriller psicanalítico no qual não se indaga quem matou, mas o que morreu.

Conheci o livro devido ao filme homônimo lançado em 2012. É um livro forte, perturbador, muitas vezes chocantes e com questionamentos muito profundos. O debate que desperta não é simples e, nem o livro nem o filme, apresentam uma resposta para a grande pergunta que surge: Teria Kevin nascido mau ou foi a rejeição de Eva que o teriam tornado um psicopata em grau tão extremado que foi capaz de cometer uma chacina impiedosa e fria? E Eva, em suas cartas, tenta identificar a sua possível culpa na criação de um mostro, abordando o questionamento: Podemos odiar nossos próprios filhos? Enfim, fica a grande questão que todos lhe colocam, desde a sua família, até as mães dos outros presidiários: “O que levou Kevin a perpetrar tão bárbara chacina, por quê, por quê, por quê?” O que torna o livro diferente é analisar o ponto de vista da mãe do assassino e não da mãe da vítima. Lionel Shriver discute de forma muito real casos de jovens psicopatas que chocam a sociedade. Em base, o livro trata de um assunto polêmico, que ninguém gosta de discutir e que muitas pessoas se negam a acreditar: algumas crianças são, pura e simplesmente, más. E ainda como isso é encarado pela família, pela sociedade e pela mídia.


Para começar temos Eva, uma mãe que não ama seu filho. Ela tenta se justificar ao máximo, já que Kevin também não a ama. Kevin é mal educado. Na verdade, eu diria que Kevin é praticamente um demônio. E por não conseguir estabelecer uma ligação afetiva com o filho, ela acaba se distanciando de Franklin, seu amado marido. Para agravar a situação depois de alguns anos, Eva fica grávida de novo, contra a vontade do marido, mas agora ela fará o possível para provar para si mesma que não é uma mãe tão horrível assim. Só que agora, quem não recebe bem a criança é Franklin, e Kevin, é claro. Franklin é o contrário de Eva com Kevin, e Kevin é totalmente receptivo aos encantos do pai. Franklin protege e justifica todos os atos do filho, enquanto Eva vai ficando cada vez mais desesperada tentando alertar o marido. No meio disso tudo o leitor não sabe se culpa Eva ou Franklin pelo o que Kevin está se tornando.  Será que a culpa é de Eva? Que nunca quis ficar grávida, que nunca conseguiu se ligar ao filho? Será que a culpa é de Franklin? Por fechar os olhos para tudo o que Kevin fazia e ainda por fazer todas as vontades do filho? Ou será que não existiria outro modo de ser para o Kevin, que desde criança consegue compreender os sentimentos e ler as pessoas e sempre se sentiu inadequado para o mundo?


Kevin é uma criança muito complicada, ele nasce sem vontade nenhuma de mamar, chora horrores por horas a fio sem saberem o motivo, detesta tudo e todos, trata mal sua mãe, rabisca todo o quarto que sua mãe decorou com mapas, destrói todos os brinquedos. Uma criança que demorou a falar e estudar (mas era tudo enganação ele já sabia falar e fazer cálculos só não queria dar nenhum tipo de orgulho para sua mãe por birra),  não brincava e largou a frauda, somente aos seis anos, por um motivo, fantástico, uma das melhores partes do livro, foi quando ele largou a frauda, e essa mesma frauda que era usada para mais uma vez afetar o psicótico de Eva. Passado os anos Kevin cresceu e continuou a provocar a Eva de todas as maneiras possíveis, apesar dele ser muito inteligente, ele não se esforçava para fazer absolutamente nadaEva relata a todo o momento que as conversas que tinha com seu marido em relação a Kevin nunca foram levadas a sério, o pai sempre o protegeu e achava que a mãe estava exagerando nos argumentos contra seu filho afinal era só uma criança. Eva tenta entreter Kevin com diversas atividades, mas o menino nunca gosta de nada e se torna insuportável mesmo, tudo que a mãe tenta fazer para agradar Kevin é feito em vão.


Cansada de só ter trabalho com Kevin decide engravidar novamente e dessa vez ela engravida de Celia uma menina linda que nasce perfeita, é super educada aceita todas as sugestões da mãe e é o orgulho de Eva, mas é um empecilho para Kevin que nunca gosta de nada. Kevin faz coisas terríveis com Celia e é impossível você não sentir raiva dele e vontade de bater nele de tão maldoso que ele é. Uma vez Eva deixa Kevin cuidando de sua irmã para provar para o pai Franklin que Eva confia em seu filho e como o mesmo já está com 14 anos precisa mostrar que é de confiança, mas Celia é internada no hospital com ferimentos graves em um dos olhos a deixando cega de uma vista. Nada se comenta desse fato na casa e Eva tem certeza de que Kevin é o responsável, mas como sua filha é boazinha ela nada diz do que aconteceu no dia do acidente.


Kevin se torna um adolescente muito difícil de se lidar (Ah vá!) e começa a ter comportamentos nojentos como se masturbar de porta aberta na frente de sua mãe, brigar com amigos na escola, xingar uma menina com problemas de peso, ele sente prazer em estragar a vida de todo mundo e tudo isso é relatado no livro sem nenhum pudor fazendo a leitura se torna bem pesada às vezes. Kevin acorda um belo dia mais cedo que o comum vai para a escola e comete um assassinato em massa matando diversos alunos e professores, ele literalmente acaba com a vida de sua mãe que faz ela se sentir culpada a todo momento por suas atitudes. Kevin é preso e condenado a 7 anos de prisão e toda essa história é relatada em formas de cartas escrita pela mãe Eva direcionada pelo pai Franklin que sempre defendeu seu filho das acusações da mãe. Os fatos são narrados bem lentamente por isso é necessário insistir para conseguir chegar até o fim do livro e entender todo esse mundo e essa visão que é ter um filho que foge dos padrões.


Lionel Shriver consegue criar uma personagem muito densa, muito humana e verdadeira até demais (ela descrevendo o que sente enquanto está grávida de Kevin é assustador até para quem não planeja ter filhos!). Ela é uma mulher meio fria, um tanto egoísta e o contraste de Eva com o marido é tão grande que é impossível não achá-la uma bruxa em vários momentos. Mesmo assim, quando você entra na mente de Eva através das cartas, é impossível não sentir raiva, medo, pena, compaixão. Aliás, o que falar de Kevin? Ele é um monstro, tudo indica que é um psicopata nato e, ao mesmo tempo, com traços tão parecidos com os de Eva que você chega a ficar na dúvida se o que ele fez é fruto da relação com sua mãe ou se ele já nasceu desse jeito. No decorrer da narrativa e nutri um ódio particular por um personagem e não era o Kevin. Contudo, comecei a odiar o pai de Kevin, o Franklin, porque acredito que grande parcela de culpa em que Kevin tenha se tornado o que ele é, o Franklin é daqueles pais em que acreditava e tentava justificar todas as coisas que o Kevin faziam desde sempre, ele tentava ser o pai que não existe. E na realidade existem muitos pais assim.



Os pais estão presentes, mas não enxergam, em nenhum momento, as necessidades emocionais do filho. Não falam sobre o Kevin, não falam com o Kevin sobre o que está havendo. Eva e Franklin mantiveram-se distante dele diversas vezes, fechando os olhos para a patologia que estava diante de seus olhos. E sabemos que precisamos falar sobre o Kevin, precisamos falar com o Kevin, precisamos falar com a Eva, e precisamos falar com o Franklin, na realidade, é difícil definir um verdadeiro culpado. Nós precisamos falar sobre o Kevin. Precisamos mesmo? Precisamos sim, com certeza! Precisamos falar sobre Kevin não é um livro fácil, não é todo mundo que vai ler e gostar. A única ressalva é o inicio do livro se prende muito na fase infantil de Kevin, mesmo sendo interessante (e importante para a história) torna-se um pouco cansativo e a leitura fica um pouco arrastada.


O filme Precisamos Falar sobre o Kevin também é impactante e perturbador, como o livro e vale a pena ver o filme pelo seu impacto visual, devido ao desempenho excepcional de Tilda Swinton no papel de Eva e pelo uso o tempo todo do vermelho como elemento simbólico da chacina que está por vir: a cena inicial da guerra de tomates, a tinta vermelha de Halloween com que crianças sujam a casa de Eva e a pilha de latas de molho de tomate na gôndola do mercado atrás da qual Eva se esconde de uma mãe de uma das vítimas de Kevin. O vermelho tem uma força simbólica evidente, sendo óbvia a relação entre essa cor e o sangue, revelando a culpa de Eva pelos atos de brutalidade do filho. O filme é no estilo minimalista, com poucas falas e um apego em detalhes que em outros filmes, seriam deixados para lá. Como eu tinha lido o livro, o filme foi bem claro, mas para quem não leu, o filme foi muito vago e até mesmo vazio. Não houve uma profundidade sobre a mãe, não houve um detalhamento da vida de Kevin com o pai (verdadeiro causador de sua personalidade), então tudo ficou vazio e nitidamente culpando a mãe por tudo, quando não é o caso no livro! A escolha dos personagens foi muito boa, com exceção de um: o pai. Franklin era descrito como um homem muito bonito, tipicamente americano, loiro e de olhos azuis e o ator que escolheram não se encaixa na descrição. Já Kevin e Eva foram escolhas perfeitas e são como os personagens descritos no livro.

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Esse livro é tão maravilhoso. Lendo eu não sabia se era verdade ou ficção. Ainda não assisti o filme.
    Concordo com o que vc falou: a gente nunca acha que uma criança possa ser má (o q é mentira, se for procurar sobre isso tem muita criança má).
    Eu senti muita raiva do pai dele, inclusive acho que parte da culpa na relação do Kevin com a mãe é do pai. Qdo ela engravidou ele infernizou a vida dela. Imagino que tenha sido difícil pra ela a gravidez, pela vida que ela tinha. E o cara ainda não tornou nem um pouco mais fácil.
    Pra mim o Kevin é um psicopata nato. Ele era manipulador desde que nasceu. Lembro que numa das cartas ela disse que quando ele tinha 7 semanas ele já era manipulador. Chorava o dia inteirinho, e quando o pai chegava em casa, parava de chorar, como se a mãe estivesse inventando o sofrimento. Durante toda a vida ele defendeu o Kevin. Que homem mais manipulável! Nem fiquei triste com o que aconteceu com ele.
    O mais triste é que a "missão" da vida dele é acabar com a da Eva. Ele não agrediu ela fisicamente, mas destrói pedacinho por pedacinho da vida dela.
    Não acho que a culpa seja da Eva. Acho que a relação deles nunca foi boa, mas ele nasceu psicopata. Se o Franklin não fosse um inútil super manipulável e acreditasse na mulher, talvez as coisas tivessem tomado outro rumo (poderiam ter procurado psicologo, tentar tratar a maldade do guri).
    Uma amiga falou que o filme passa a ideia de que a culpa é da mãe por ter rejeitado ele quando engravidou. Acho bem fraco isso, porque se fosse assim o mundo ia estar cheio de psicopatas...
    Quero reler esse livro. É tãooo bom! <3
    Ótima resenha,
    Bjs, Rafa
    (ohmylivros.wordpress.com)

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    1. Obrigado Rafa <3 O filme passa essa ideia mesmo, o bom do filme é visualizar algumas cenas que lemos nos livros e as atuações!!! Amo esse livro!!!

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  3. Olá!
    Gostei muito do enredo do filme e do livro. Vou tentar assistir em breve.
    Ele põe uma questão que foi debatido no meu curso (faço Direito), na matéria de Psicologia em que discutimos e elaboramos teorias, apresentamos teses e opiniões a respeito dessas atitudes logo na infância, o que acontece no psicológico, se é algo que a sociedade influencia ou é algo dela.
    Adorei o blog, já estou seguindo!

    Abraços
    Leitora Cretina

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    1. Que legal, essas discussões são sempre muito válidas!!! Obrigado S2

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