quinta-feira, 27 de outubro de 2016

RESENHA: SANGUE QUENTE

SINOPSE: R. é um jovem vivendo uma crise existencial – ele é um zumbi. Perambula por uma América destruída pela guerra, colapso social e a fome voraz de seus companheiros mortos-vivos, mas ele busca mais do que sangue e cérebros. Ele consegue pronunciar apenas algumas sílabas, mas ele é profundo, cheio de pensamentos e saudade. Não tem recordações, nem identidade, nem pulso, mas ele tem sonhos. Após vivenciar as memórias de um adolescente enquanto devorava seu cérebro, R. faz uma escolha inesperada, que começa com uma relação tensa, desajeitada e estranhamente doce com a namorada de sua vítima. Julie é uma explosão de cores na paisagem triste e cinzenta que envolve a “vida” de R. e sua decisão de protegê-la irá transformar não só ele, mas também seus companheiros mortos-vivos, e talvez o mundo inteiro. Assustador, engraçado e surpreendentemente comovente, Sangue Quente fala sobre estar vivo, estando morto, e a tênue linha que os separa.


R. é um zumbi, sim um daqueles seres que babam, grunhem e comem carne humana. Ele não sabe ao certo quem era e nem ao menos lembra seu nome, só sabe que hoje é um zumbi. São essas informações que temos sobre R. ao iniciar a leitura de ‘Sangue Quente’. O acompanhamos na caça e vemos o seu dia a dia, mas ainda assim podemos perceber que R. tem algo de diferente. Ele tem consciência do que é, e do que já foi, ainda que não tenha lembranças da sua vida humana. Durante mais uma de suas excursões para se alimentar, R. e seus companheiros zumbis encontram jovens humanos da maior comunidade resistente e ao se alimentar do cérebro de Perry e ter acesso a muitas de suas lembranças ele acaba se encantando pela figura de Julie, a namorada de Perry. 


R. em um primeiro momento não sabe bem o que sente por Julie, a não ser a necessidade de protegê-la de seus iguais. E a forma que ele encontra para fazer isso é bem estranha e acaba aproximando os dois. O que permite que Julie veja o outro lado, o zumbi que apesar de tudo já foi um ser humano e que não pediu para se tornar o que é, e que se alimenta de pessoas para manter-se ‘vivo’. R. que antes de conhecer Julie já aparentava ser diferente, pela sua consciência e questionamentos, passa a questionar ainda mais o que aconteceu com ele e também sobre a forma como ele, um morto-vivo, leva a vida e começa a sentir gradualmente a necessidade de viver verdadeiramente.


Só que a comunicação entre os dois é muito ruim. ‘R’ não consegue pronunciar as palavras direito e não sabe como explicá-la o porquê de tudo aquilo. Os dois começam então a ter um ‘relacionamento’ meio que superficial. Ele um zumbi – e um zumbi muito bem apanhado – Ela, uma garota normal. Decidida a não viver mais entre todos aqueles zumbis, escondendo-se e não tendo o que comer direito, Julie quer ligar para o pai e voltar para o Estádio – local mais seguro para os humanos. E é claro que a aproximação de um zumbi com uma humana põe abaixo todas as convenções estabelecidas. E cria muitos problemas, tanto para os vivos quanto para os mortos-vivos.


Engolir esta ‘união’ é ainda mais difícil para os radicais, aqueles que defendem as regras estabelecidas ainda que não se favoreçam dela, e na comunidade zumbi eles são bem representados pelos ossudos (mortos-vivos que não tem carne em seu esqueleto). Os questionamentos e atitudes de R. geram uma inquietação em todas as raças envolvidas, e os conflitos tomam uma nova proporção, quem está do lado de quem, quem vencerá e se existe realmente a chance de sair vitorioso desta situação são respostas que apenas lendo o livro para saber.


Na versão brasileira do livro, assim como na americana, lançado aqui pela Leya em 2011 vemos a seguinte frase da autora de crepúsculo, Stephenie Meyer: “Nunca pensei que poderia gostar tão apaixonadamente de um zumbi. Fiquei pensando na história muito tempo depois de acabar de ler o livro.” Mas um aviso: ‘Sangue Quente’ não se assemelha a ‘Crepúsculo’. Julie é uma protagonista totalmente diferente de Bella e R. só tem em comum com Edward a luta contra sua natureza. Julie não é uma protagonista ‘ficha limpa’, pelo contrário, ela tem um passado bem complicado, todo trabalhado em drogas e prostituição, além de ter uma questão familiar bem conturbada. E apesar de todas as confusões com as quais se envolveu ela ainda não desistiu e não vê a vida como uma reles sobrevivência. Julie acredita em um futuro para a humanidade que não inclui viver trancado em pequenos ambientes abrindo mão de tantas coisas apenas para se manter viva. Ela quer encontrar a “cura”.


A visão de R. é interessante uma vez que não estamos acostumados com uma narração meio estranha, mas flui bem, é rica em detalhes, sem furos extremos e nos prende, nos deixando curiosos sobre o que irá acontecer com ele e com este novo mundo. ‘Sangue Quente’ uma grande sátira aos zumbis. A história é bem desenvolvida, tem cenas românticas, eletrizantes e as últimas páginas são de tirar o fôlego. O autor Isaac Marion também tem um currículo curioso, esse é seu primeiro livro e antes ele trabalhou como coveiro, entregador de camas hospitalares e supervisor de visitas parentais. O autor já confirmou que está escrevendo uma sequência para o livro que se chamará “The Burning World”.


A adaptação cinematográfica do livro, intitulada Warm Bodies, que literalmente seria Corpos Quentes, foi traduzida aqui para o horrível título Meu Namorado É Um Zumbi. O nome Sangue Quente seria bem melhor!  Esse nome do filme é desanimador e muitas pessoas não viram o filme por causa do nome (é nome realmente desanima de ir ver o filme, se você não conhece ou leu o livro). Existem algumas diferenças entre o livro e o filme inspirado nele, a primeira diferença percebida por quem leu/vai ler o livro são as roupas do protagonista, enquanto no filme ele está de casaco largo e tênis, no livro ele está com “roupas boas”, como ele mesmo diz, uma calça preta, blusa cinza e gravata vermelha. A primeira parte do filme é ótima, aliás. Começa de forma bem parecida com o filme, que apenas enxugou detalhes da história que considero desnecessários, como a “esposa” e os “filhos” zumbis do R.


Os cenários também se modificaram um pouco, talvez pela dificuldade de reproduzir tais cenários na telona ou apenas pela parte estética: ao invés de enclausurados dentro do estádio com teto retrátil (livro), os sobreviventes da colônia de Julie vivem em um pedaço de cidade cercado por uma muralha (filme). Destaca-se também que, enquanto que no filme há apenas um último refúgio de sobreviventes, no livro são citados outros, todos interligados entre si. Tanto no livro quanto no filme, R. coleciona diversos objetos e, em especial, discos. Enquanto no livro as cenas são embaladas ao som de Frank Sinatra, no filme optou-se por uma trilha clássica-moderna, trazendo hits mais contemporâneos, como por exemplo Patience, da banda Guns ‘n’ Roses.


No livro, o pai de Perry morre em um acidente de trabalho, durante as construções da cidade dentro do Estádio. No filme, Perry é atacado pelo pai, que havia se transformado em zumbi. Ainda sobre Perry, o personagem sofre uma grande redução de importância no filme, em comparação ao livro. No livro, a mente de Perry passa a se comunicar com R., se tornando uma espécie de Alter Ego. Essa parte foi totalmente eliminada no filme. Perry surge apenas em flashbacks e, em apenas um momento, se comunica diretamente com R. em um sonho. A carga dramática que envolve a personagem Julie foi abrandada no filme, talvez principalmente pelo fato do filme ser uma comédia romântica e não um drama, como no livro. A exemplo disso, no livro, em um dos momentos mais dramáticos, Julie visita o túmulo de sua mãe e ali explica a R. o verdadeiro abismo sentimental que existe entre ela e o pai, que, após a morte da mãe, se tornou um homem insensível e pouco presente. No filme, essa cena não acontece e o General Grigio não demonstra ser tão duro quanto no filme.


O final também difere bastante em ambos, não se pode dizer nomear um deles como melhor, pois tanto o livro quanto o filme são muito bem finalizados de acordo com o decorrer da história. Enquanto no livro o pai de Julie não aceita R. e morre em um ataque dos esqueletos, no filme Grigio reluta, mas no final das contas, aceita que os mortos estão mudando, fazendo com que o final dramático do livro seja substituído por um final mais florido e romântico.


QUANTAS VITAMINAS "SANGUE QUENTE" MERECE?

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