quinta-feira, 24 de novembro de 2016

ENTREVISTA COM RODRIGO MOREIRA, AUTOR DE ELE NÃO É ISSO

SINOPSE: Em pleno marco zero de São Paulo e escondida entre as paredes do edifício Nazareth, uma história, que antes fora de amor, vai se tornar sofrimento, tortura e medo. Em uma noite tranquila, Matias e sua esposa, Felícia, grávida de 6 meses, são atacados por um cão. Para ele, havia sido apenas um susto. Para ela, uma dolorida, mas curável, ferida na perna. No entanto, a ignorante certeza de que tudo acabará bem, desprezando a necessidade de cuidados médicos, causará sérias consequências. O que tal negligência ocasionará às vidas dessa família? Que destino um simples acidente revelará para o mundo? Matias, enclausurado em seu apartamento com seu filho, Júnior, viverá momentos tenebrosos e sombrios que mudarão para sempre a sua história e das pessoas à sua volta. Um pai, um filho e um destino amedrontador. Uma história de terror, drama? Quem sabe! Pode-se dizer que este é, apenas, um relato sobre um ser que, há muito tempo, deixou de viver, mesmo que a função fisiológica denominada respirar diga o contrário.

Como surgiu a ideia de escrever "Ele Não É Isso”? Eu havia acabado de ler o livro “Protocolo Bluehand Zumbis”, publicado pela Nerdbooks. Fiquei encantado com a obra, pois não era um romance (isso eu já sabia), mas um manual de sobrevivência contra um “possível” apocalipse zumbi. Toda a experiência de leitura foi fascinante: capa, diagramação, ilustrações, dados biológicos e reais, universo ficcional incorporado à realidade... Enfim, foi tão bom que em vários momentos da história eu me peguei pensando que “sim”, uma hecatombe poderia acontecer. Olha... Foi assustador me ver nesse cenário! Saindo da ficção, notei que essa obra (PBHZ) trouxe um argumento diferente daquilo que os livros, filmes e HQs apresentam sobre o tema. Não era mais uma estória de zumbis que saiam dos túmulos e andavam por aí, comendo devorando pessoas. Não que esse tipo de proposta não tenha profundidade. Sou fã das produções de Kirkman e Romero, grandes referências para meu livro, inclusive. Além disso, eu adoro desvendar as várias camadas de suas obras. Mas, PBHZ trouxe uma um novo “respiro” para essa mitologia sobre os mortos vivos, ou seja: fatos + ficção = será que isso poderá acontecer um dia? Bom, eu já gostava do tema, terror está na minha vida desde criança, eu contava estórias desde os 7 anos (escrever mesmo só quando adulto), e aí... Eu me perguntei: “Como não ser mais do mesmo, quero dizer, falar sobre os mortos, com profundidade, e não apenas sob a premissa de uma grande invasão, saca?”. Eu me questionei o que seria apavorante para muitas pessoas. Sangue, morte, contas vencidas (rs) foram algumas das respostas que eu obtive. Mas ainda era pouco. Precisava de mais coisas. Foi então que eu compreendi que a morte, não se torna assustadora somente pela saudade de um ente querido, por exemplo. Ela é algo hediondo quando o fator “injustiça” chega junto a ela. Quer injustiça maior do que perder um filho, uma criança que ao menos teve a chance de conhecer o mundo? Pois é, foi assim que eu compreendi o que seria diferencial na minha obra: uma criança. E os leitores podem entender a criança sob muitas perspectivas: um bebê, uma pessoa com 7 anos de idade, um adulto que mantém aquele “espirito” de infantil, brincalhão ou frustrado. Aliás, frustração é o que assombra o universo de Matias, protagonista do livro.
Quanto tempo demorou para a história ficar pronta? Durou 9 meses até ser terminada. Foi um processo de pesquisa, rascunhos, escrita, ajustes e tal. Para quem quer escrever, não pense que a primeira versão do livro é a melhor. NÃO É NÃO! Essa... É sempre a pior hahaha.
O que o leitor pode esperar de "Ele Não É Isso”? Prefiro dizer o que eles “não podem esperar”: uma estória de medo ou susto. Eu considero um pouco injusto sobrecarregar a temática “terror” e “horror” com a cobrança de que sempre deverão assustar, causar medo e por aí vai. Constatar uma injustiça social, por exemplo, pode ser tão apavorante quanto um fantasma surgir de dentro do guarda-roupas. E é isso que “Ele não é isso” retrata: o horror do dia a dia. O livro é repleto de camadas que mostram um grande sofrimento psíquico dos os personagens. E cada situação se desenrola de acordo com as decisões tomadas no passado, principalmente. Cada pessoa, em todo mundo, carrega dentro de si os seus monstros, fantasmas, lobisomens, vampiros... E zumbis. O que eu fiz foi pegar um pouco da simbologia e metáforas que esses ícones representam, e leva-los para a vida comum de um personagem, que, diga-se de passagem, pode ser qualquer pessoa. Algumas resenhas sobre o livro, excelentes por sinal, batem muito na tecla de que o final não é tão bom e que tem cenas violentas demais (gratuitas). Eu não vou dar spoiler, mas fomos acostumados ao “Felizes para sempre”. E ser feliz nem sempre significa casar com a princesa ou com príncipe. Ser feliz pode, e deve ser também, executar ações mínimas no dia a dia. Ações quase imperceptíveis, muitas vezes. Se eu perguntar agora quem é a pessoa que acorda às 4 da manhã, no seu bairro ou na sua cidade, para recolher o lixo nas ruas, com certeza você, leitor, não saberá dizer. Mas o lixo foi recolhido e talvez você não o note, pois ele não está lá. É ISSO!!!! Existem heróis no anonimato também, que deixam a cidade limpa para você. Entenda a descrição “cidade” como algo simbólico: pode ser onde você mora, a sua vida pessoal, seus valores e etc. Uma infinidade de coisas. E Matias, em sua jornada, torna-se um herói anônimo ao guiar, mesmo que aos “trancos e barrancos”, sua vida e a de outros para algo importante: a esperança. Ah, sobre a violência... Bom, fui uma criança que cresceu nos anos 80. Filmes slasher fazem parte da minha cultura (rs). E também foi um modo chamativo de extravasar o horror contido dentro de cada ser humano.
Qual autor ou autora é seu preferido? São três: Paulo Coelho, Fábio Yabu e Neil Gaiman. São autores que, na minha concepção, vão além do mundo como o conhecemos. Entregam aos leitores possibilidades desconhecidas até então, de verem e interagirem com um universo tão belo quando o que os nossos olhos, viciados pela rotina, enxergam. Os livros do Paulo têm grande significado simbólico na minha vida. Não sei porque, mas eu nunca consigo lê-los quando os compro. Já tentei, mas a leitura é sempre arrastada e maçante. Porém, um belo dia, sinto o “chamado” (rsrsrs) e, aquela estória, antes cansativa, interage perfeitamente com o meu momento de vida naquele momento. Sei que isso parece piegas, mas... a leitura é isso: uma experiência individual e intransferível, né?
Eles de alguma maneira te inspiraram a escrever? Sim. Como dito acima, me ajudam a enxergar possibilitas ainda não conhecidas. Não apenas para escrever, mas para viver.
Se "Ele Não É Isso" pudesse ter uma trilha sonora, qual música você escolheria? Eu escolho a música Day After Day, da Badfinger. Eu, inclusive, menciono essa trilha em uma das passagens do livro. Ela retrata com perfeição o universo da obra e a vida de Matias.
Você segue carreira apenas como escritor ou tem outra profissão? Tenho sim. Sou psicólogo. Me formei em 2005 e desde então, exerço minha profissão. Durante um bom tempo “casei” bem o mundo das empresas com a clínica. Atualmente me dedico mais ao consultório. Ajudo pessoas a se autoconhecerem e a saírem de momentos de crise.

Deixe uma mensagem para nossos leitores: Primeiro vai o meu agradecimento a cada um de vocês. Por cada palavra, mensagem recebida, por cada ato de apoio. Acreditem: uma obra só tem sentido se tocar o coração de cada um. SUPER OBRIGAGO! A outra coisa é que desejo, a cada um, que sigam suas vidas e consigam lidar com os altos e baixos, situações naturais em nossas vidas. Mas, para que essa segunda mensagem não fique algo frio e jogado, vou complementá-la a partir resposta anterior, tá bom? Ao contrário do que muitos pensam, fazer psicoterapia não é sinônimo de “loucura” ou “derrota”. Este é, tanto quanto ir à academia, ao cardiologista, nutricionista, dentista, um ato de cuidado com a saúde e bem-estar (saúde emocional). A maioria dos meus pacientes não são depressivos, por exemplo. Não que a depressão não seja uma situação importante, mas muita gente acha que só deve ir ao psicólogo em casos assim. E não é. Tem gente que me procura para receber ajuda porque estão passando por situações de mudança de emprego, por exemplo. Parece simples para uns, mas para outros não. Muitas delas eu atendo de forma breve: 08, 09, 10 sessões. Nem sempre é necessário um processo de longo prazo, sabe? Outra coisa importante é que nunca é o problema ou a doença em relação à pessoa, mas o inverso. Cada dilema “conversa” com o estilo de vida que uma determinada pessoa leva. A depressão e o transtorno de ansiedade, por exemplo, têm significados diferentes para cada ser humano. O que eu quero dizer com isso é que o horror, que mencionei acima, está implícito em cada dilema que vivemos, criando ou resolvendo cada um deles. Mesmo a vitória pode trazer para alguém a crise de mantê-la. Pois não é fácil chegar ao topo, e tão pouco é ficar nele; contudo, atingir o sucesso não é somente uma experiência ruim. Também é algo GRANDE, de muita alegria, prazer, aprendizagem, autoconhecimento. Por isso a mensagem: “... desejo, a cada um, que sigam suas vidas e consigam lidar com os altos e baixos, situações naturais em nossas vidas.”. Fantasmas, monstros, aberrações, dividem o mesmo universo com os príncipes, princesas, cavalos-alados e reinos encantados. Podemos conviver em paz, mas em alguns momentos haverá conflitos junto. E deles, surgirão às oportunidades. Quais possibilidades desconhecidas, você, leitor, precisa enxergar? O que você ainda não fez em sua vida, mas que precisa fazer agora? Como? Grande abraço.

Rodrigo Moreira tem 37 anos e mora em São Paulo - SP.


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