quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

RESENHA: NERVE

SINOPSE: Você já se sentiu desafiado a fazer algo que, mesmo sabendo que pode se arrepender depois, acaba levando em frente? A heroína deste livro também. Vee cansou de ser só mais uma garota no colégio, e quer deixar os bastidores da vida para assumir seu merecido posto sob os holofotes. E o jogo online Nerve, febre nacional transmitida ao vivo, pode ser o início dessa trajetória de sucesso. Basta que ela clique no botão “Jogador” em vez de “Espectador” para entrar na disputa, que propõe, a cada etapa, um desafio novo. A adolescente acaba formando uma dupla imbatível com Ian, um garoto desconhecido com quem trava contato ao se inscrever em Nerve. Juntos, vão galgando posições no jogo. Mas, conforme os dois avançam na disputa, os desafios ficam cada vez mais complexos… e perigosos.


Confesso que o que me atraiu para ler esse livro foi o trailer do filme. Quando soube que tinha um livro que originou o filme, comprei na mesma hora! O livro foi publicado em 2012 e teve seus direitos comprados logo em seguida, mas a adaptação cinematográfica saiu apenas esse ano. Quem nunca brincou de Verdade ou Desafio, que atire a primeira pedra. Mas nesse livro, a coisa deixa e ser uma brincadeira para virar um jogo muito perigoso… Vee (cujo nome verdadeiro é Vênus) é uma adolescente quase normal. Quase, porque ela está num castigo quase eterno depois que adormeceu no carro, dentro da garagem de casa – e seus pais acharam que ela quisesse se matar. Mas tudo bem, ela está tentando compensar, estuda bastante e tem atividades extracurriculares, como ser principal backstage do grupo de teatro da escola. A vida vai bem, ela tem amigas (principalmente Syd), está flertando com o gatinho da escola, Matthew (aquela paixonite de toda adolescente nessa fase)… Mas tem um problema: ela está sempre nas coxias da vida, sempre nos bastidores.


Um belo dia e por um belo par de sapatos, Vee resolve aceitar o desafio de um jogo na internet, que basicamente é um Verdade ou Desafio – mas sem a verdade, só o desafio mesmo. E cada desafio cumprido, vale mais e mais prêmios. É assim que começa a trajetória de Vee dentro do jogo. E quanto mais desafios cumpre, mais o Nerve parece saber quais são os desejos da garota, já que oferece prêmios cada vez mais irresistíveis e continuar jogando se torna tentador demais. Ninguém sabe quem está por trás do jogo. Somente que ele é uma espécie de Big Brother, onde as pessoas pagam para assistir os outros fazendo coisas malucas e inusitadas e muitas vezes, até perigosas demais.


Quem fizer mais sucesso nos desafios do Nerve é selecionado para a etapa seguinte. Coisas simples, como virar um copo de água na cabeça no meio da cafeteria ou cantar bem alto em público… A cada jogada o desafio fica mais difícil e o prêmio aumenta… Como uma bolsa de estudos, um carro, uma viagem… O interessante é que o jogo sabe o prêmio que o jogador quer e usa isso a favor. No meio dos desafios ela encontra Ian, um outro jogador. Nerve decide que eles serão uma dupla e passam a realizar os desafios juntos. Além dos jogadores temos os observadores, eles pagam para assistir o jogo, sugerem desafios e muitas vezes acompanham as missões.


Mas nem tudo é diversão. O jogo começa a tomar um rumo muito sombrio, com desafios pessoais que ameaçam relacionamentos e o bem estar da dupla. Mas os prêmios são tão bons que eles decidem ir até o desafio final. Esse desafio envolve todos os outros jogadores que conseguiram cumprir todas as missões e o jogo preparou uma grande surpresa para eles. 


Em uma época de jogos como PokémonGo, o livro fala sobre a busca dos jovens por atenção e "visualização", escolhas impulsivas e comportamentos instintivos, a impunidade dos comportamentos realizados online (crimes virtuais), o pensamento muito ruim de pessoas que acham que a máscara da anonimato da internet faz com que suas atitudes sejam menos erradas. A ideia da autora foi sensacional e consegue abordar vários itens da era da internet de modo rápido e cheio de ação. Uma espécie de Jogos Vorazes da era digital, só que sem tanta violência.


Talvez o que realmente tenha me feito refletir seja a veracidade, o fato de que um jogo como esse poderia surgir agora mesmo e assim como no livro teria vários adeptos para jogar e assistir, assim como investidores. As redes sociais têm ganhado mais espaço a cada dia e infelizmente essa busca incansável por visualizações, likes e popularidade levam as pessoas a não pensar nas consequências da exposição, aceitando qualquer desafio pela fama e dinheiro. A autora foi muito sagaz em sua abordagem, ela traz para discussão os perigos da internet, nos levando a refletir sobre a exposição exagerada, a maneira como o “anonimato” torna as pessoas mais corajosas, ousadas, cruéis. E que infelizmente desvendar um crime virtual e puni-lo é muito difícil.


O limite da privacidade é ultrapassado inúmeras vezes no livro, retratando como as pessoas perdem a empatia diante daquilo que elas veem pelas telas de seus celulares. Mostra também como a manipulação para se atingir a fama na internet é real e que a traição para se atingir o que é desejado vem de quem menos esperamos. O medo, a raiva e a dor são vistas por uma lente de aparelho celular tornam as pessoas menos humanas. A necessidade de autoafirmação na adolescência, de precisar provar coragem também preenchem as características dos personagens que compõem a história. O real valor de recuperar a privacidade se mostra mais importante do que o escudo de aplausos de estranhos que só trazem um conforto momentâneo. Mostrando como cada pessoa age e o que elas são capazes de fazer e de abrir mão para conseguir aquilo que se deseja.


A história é divertida e prende logo no inicio do livro. A dinâmica da narrativa é bem fluida, a história tem um enredo legal, que te prende do início até o final. Li o livro em dois dias! Não conseguia parar de ler! O livro é narrado em primeira pessoa por Vee. Ela pode até parecer careta e chata por ser tão certinha, mas deixa de ser aquela adolescente frágil e passa a ser mais ativa tomando decisões que a definem como heroína conforme o jogo avança e muito disso se deve ao seu envolvimento com Ian. 


Recentemente saiu um filme inspirado no livro. Isso mesmo, INSPIRADO. Porque NÃO TEM NADA A VER COM O LIVRO. Nada. Agora eu sei como os fãs de Percy Jackson se sentiram. O centro da história e as principais mensagens que a autora queria passar no livro estão presentes na adaptação. Mas existem muitas modificações nos personagens, nos desafios (TODOS são diferentes do livro), no desenvolvimento jogo, enfim, só foi utilizada a ideia central do livro mesmo! No filme estrelado por Emma Roberts e Dave Franco, Vee (já sabemos o verdadeiro nome dela logo de cara, o que só acontece no fim do livro) trabalha como fotógrafa, sua amiga Sidney é líder de torcida e seu crush Matthew é um jogador, enquanto no livro ela trabalha na maquiagem e bastidores de uma peça de teatro, sua amiga e seu crush são atores. No filme a parte do castigo de Vee pela sua suposta tentativa de suicídio, assim como seu pai não existe. E existe um irmão falecido que não tem no livro. Parece outra história na verdade. Mas o filme não é ruim, pelo contrário, é muito bom também.


Não existe uma cena, nenhuma, nem uma cena sequer do filme no livro e vice-versa. Eu já tinha visto filmes mal-adaptados ou filmes que mudam alguns detalhes por questão de logística ou simplesmente porque nem tudo que funciona em uma mídia, funciona em uma mídia adaptada. Mas eu nunca tinha visto isso acontecer. Eu marquei capítulo por capítulo e consegui achar apenas duas coisas que acontecem ambos no filme e livro, e mesmo assim não acontecem do mesmo jeito nos dois. O filme só mantém o jogo e o nome dos personagens. Os desafios, os prêmios, os conflitos entre personagens, os personagens confiáveis e até o final são diferentes. O filme tem uma pegada mais jovem adulta, enquanto o livro segue uma linha mais simples e adolescente se comparado ao livro. Mas eu recomendo tanto o livro quanto o filme. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente com o Facebook: