quinta-feira, 26 de julho de 2018

RESENHA DO LEITOR: PRIMEIRO AMOR


SINOPSE: O primeiro amor, esse sentimento avassalador e intoxicante, que paralisa e faz sofrer, se desdobra, nas mãos de Ivan Turguêniev, em infinitas histórias que na verdade são uma só: a história de um amor platônico. O grande autor russo abraça esse sentimento universal como ninguém e cria um dos seus mais festejados livros. Vladimir Petróvitch, um garoto de 16 anos, cai de amores pela vizinha, Zinaída Alexándrovna, de 21 anos, filha de princesa e dona de uma beleza arrebatadora. Mas o destino de amores platônicos todos sabem qual é. E Turguêniev, na sua genialidade, soube ir além. Publicado em 1860, Primeiro amor reflete todo o lirismo e o frescor da primeira vez que o coração acelera por alguém.


Impressões Pessoais: Olá, leitores! Hoje trouxe para vocês as minhas impressões sobre este clássico da literatura russa. De tanto ouvir falar da Rússia nesses tempos de Copa do Mundo fiquei desejoso de ler algo da literatura russa. Primeiro amor foi escrito e publicado em 1860, quando Turguêniev tinha 42 anos. Havia ganhado projeção nos anos anteriores com a publicação dos contos de Memórias de um caçador (1852) e dos romances Rúdin (1856), Ninho de nobres (1859) e Na véspera (também em 1860). Todos esses livros têm forte cunho social e político. Basta dizer que, após a publicação de Memórias de um caçador, Turguêniev ficou preso por um mês e, em seguida, foi confinado em sua propriedade rural por mais de um ano. Mas nessa novela, o autor não apresenta o mesmo teor de observação e de análise social e histórica patentes em seus livros anteriores.


Neste texto, o autor parece abstrair a história presente e concentrar suas energias no terreno dos afetos. Não que nos demais livros do autor essa dimensão seja irrelevante ou secundária. Ao contrário. A observação matizada dos movimentos da vida interior sempre constituiu um dos grandes trunfos do escritor. Uma das chaves da técnica de Turguêniev reside na construção de uma perspectiva que estabelece uma distância entre os protagonistas e o que se passa de fato à sua volta. Incompreensão, ingenuidade, frustração, aspirações desmedidas, indecisão — são vários os mecanismos com que Turguêniev instaura e regula essa distância. Em especial, recorre à hesitação como um instrumento para retardar a ação, aumentar a tensão e, assim, ampliar o alcance e o significado de cada momento e de cada detalhe.


Temos assim um autor que adota a perspectiva de um adolescente e, desse ângulo, põe em questão a idealização das relações afetivas e os pressupostos do romantismo, que a Rússia importara em bloco da Europa ocidental, décadas antes. O choque entre as ilusões e os fatos, entre as aspirações abstratas e as relações cotidianas, bem como a relutância em admitir tal choque se articulam para reconstituir um momento crítico de aprendizado e de amadurecimento pessoal. Após uma festa, três conhecidos estão sentados à mesa, conversando, tendo como tema de conversa o primeiro amor de cada um. Os dois primeiros não conseguem desenvolver uma história interessante, mas o terceiro prefere escrevê-la. É assim que nós conhecemos o jovem Vladímir Petróvitch que se encanta pela sua vizinha, Zinaida. E que narra em primeira pessoa a sua primeira desilusão amorosa.


Além de serem de condições sociais diferentes, e Vladímir ser bem mais novo do que Zinaida, ela mostra-se uma mulher prepotente, altiva e dominadora. E ele se submete a esse romance de forma jovial e submissa. E ela gostando de brincar e ser manipuladora dos homens, valendo-se da sua beleza, engana o pobre Vladímir. Tanto que o leitor se surpreende com trechos, como:

“Soube que o senhor tem dezesseis anos, já eu tenho vinte e um: veja, sou muito mais velha do que o senhor, e por isso o senhor tem de me dizer sempre a verdade… e me obedecer — acrescentou. — Olhe para mim… Por que não olha para mim?”
“Zinaida se mantinha muito austera, quase arrogante, uma verdadeira princesa. Em seu rosto havia altivez e uma fria imobilidade — eu nem a reconhecia, não reconhecia seus olhares, seus sorrisos, embora me parecesse linda mesmo naquele novo aspecto.”


Por isso, esse relato é também um texto sobre a desilusão e sofrimento de um jovem inocente. Que não imagina que Zinaida o engana com outro homem que é tão próximo dele. Há muito a ganhar se lermos Primeiro amor tendo em mente esse quadro histórico. E se não deixarmos passar em branco a referência, nas primeiras páginas do relato, aos meninos magros e esfarrapados que trabalham numa fábrica de papel de parede e, na última página, à morte de uma velha miserável.

Sobre o autor: Ivan Serguêievitch Turguêniev (1818-83) foi prosador, poeta, dramaturgo, tradutor e ensaísta russo. Nasceu na província de Oriol, na vasta propriedade rural de sua mãe. Mulher autoritária e brutal, Varvara Petrovna exercia um poder tirânico sobre os servos e os filhos. O pai, embora de linhagem aristocrática e de instrução e hábitos refinados, não tinha dinheiro e casou por conveniência. Em 1833, Ivan Turguêniev começou a estudar na Universidade de Moscou e no ano seguinte transferiu-se para a Universidade de São Petersburgo. Após formar-se, em 1837, partiu para a Europa. Extremamente culto, lia em latim e em grego. Dominava várias línguas europeias e era tão competente em francês que seu último texto, um conto sobre um naufrágio (lembrança de um fato vivido por ele), foi ditado nesse idioma para Pauline Viardot quando o escritor estava acamado, padecendo do câncer que o levaria à morte pouco depois. Seu corpo foi transportado da França para a Rússia, onde foi enterrado. Seu cortejo fúnebre deu ensejo a manifestações populares.

VITAMINAS:


RESENHA ESCRITA POR: Felipe Maranhão
22 anos. Graduando do 6° período de Letras, da Universidade Federal do Tocantins. Pesquisador em Iniciação Científica pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, com ênfase em bilinguismo Krahô. E amante da literatura universal.

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